Particiando do desafio Poetizando
com uma só letra de nossa amiga Gracita em seu blog sonhosepoesias, onde estão algumas inspirações e links de amigos inspirados. Confira este belo desafio.
Todos os dias Tia
Geraldina ia até a lixeira da feira do produtor em Belo Horizonte. Com seu
carrinho velho de supermercado para catar coisas, para aproveitar na
alimentação de seus netinhos. Mas catava flores, brinquedos e coisas pelo
caminho. Os feirantes diziam: "Lá vai a santa do lixo, que vê pelas ruas
aquilo, que a gente finge não ver, mas tudo tem uma história.
Na casa dela, de parede
azul descascada, o lixo acumulava, com caixotes velhos fez um altar e um
oratório. Um saco de aniagem coberto de purpurina era o manto para a imagem de
Iemanjá, que ela achou num terreno baldio, com algumas avarias. As flores
murchas iam para um copo d’água, ao lado da vela feita com resto de
parafina.
Seu neto mais velho
questionava porque ela levava lixo para casa todos os dias.
Ela respondia, sem
tirar o olho para a imagem, que lixo era um nome que as pessoas davam para tudo
que elas não queriam mais. Ainda dizia que tudo aquilo, foi Deus que fez e não
merecia ser descartado de qualquer maneira. Que ela dava nova vida a elas.
Olhou para um caixote e disse, que ele carregou alimentos para muita gente e
fora descartado. As flores tinham levado carinhos para muitas pessoas. Até’
aquela santinha estava na chuva, mas merecia um abrigo.
Tia Geraldina dizia
para eles que o lixo é sagrado, que sentia honrada em dar vida a tudo, que
catava pelas ruas da cidade. Que as pessoas jogam fora o que elas não conseguem
vender, mas para ela servia como cuidados. Ajoelhava em frente a imagem e fazia
silenciosamente suas orações sob os olhos dos netinhos.
Numa manhã o netinho
saiu com ela pelas ruas, olhando tudo e catava o que lhe chamava a atenção.
Toninho
15/04/2026
Grato pela visita.
Nota: A tia Geraldina existiu, mas a
história não espelha toda verdade.
Participando da convocatória do projeto Escrevendoàs quintas 9 de abril, como promoção da nossa amiga Campirela em seu blog. Veja links dos amigos por lá.
Olhando estrelas na solidão.
Era uma noite de
insônia, estava na janela observando o céu com suas mutantes nuvens, um
silencio reinava, apenas cortado pelo bater de asas de algumas criaturas
noturnas. Sentia o peso da solidão como uma sombra a me acompanhar independente
de permissão.
Sentia um vazio, um eco
sem som. Apenas um sussurro questionava o que eu era sem ninguém para me ouvir
e acolher. Parecia um convite para viajar pelo coração sem medo ou razão,
provocava um encontro comigo mesmo. A solidão não me parecia castigo, passei a
sentir meu próprio canto, a paz no silencio.
O tempo parece, que não
passava, então encontrei aquela criança curiosa, cheia de vida. As figuras
desfilavam à minha frente. Tomado de nostalgia, passeava pela casa da avó, junto
com meu cãozinho. Falei com os passarinhos, que cantavam felizes. Um cheiro de
jasmim me envolvia, quando um aroma delicioso escapou das panelas pretas do
fogão à lenha como uma sedução.
Um cheiro de óleo
diesel me resgatou do passado, num instante em que uma estrela cadente riscou o
céu. Assustado olhei para todos os lados, mas nenhuma alma viva presente na
madrugada. A rua agora silenciosa e lá no céu uma Lua curiosa me alumiava.
Ali na janela a sós
comigo, senti o peso das lembranças do menino em sua travessia e uma lagrima
escapou do olho e agasalhou-se no peito, quando os primeiros raios solares desvirginavam
a manhã.
Participando da convocatoria Escrevendoàs quintas, convite vindo da Monica onde ela apresenta algumas imagens como inspiração. A minha escolhida abaixo:
Naquela
porteira
Era uma vez, sob o abrigo de duas
árvores que se abraçavam, havia uma porteira que dava acesso a duas fazendas.
Por ela passaram histórias, sonhos e segredos. Era comum ver sobre ela o
pequeno Julião, encantado com os vaqueiros guiando a boiada para o pasto.
Um dia, numa manhã nublada, lá estava o
menino sobre a porteira, para o mesmo ritual de todos os dias. Ainda sem ver
chegar a boiada, observou algo escrito numa das tabuas da porteira. Soletrou o
escrito, que dizia que: “A felicidade está onde o coração se sente em casa”.
Aquela frase ficava martelando na sua mente, quem poderia ter escrito aquilo
num lugar deserto.
A partir daquele momento, a porteira
nunca mais foi a mesma, pois agora guardava um pedaço de magia, algum segredo
ou um recado. Depois de anos, o menino cresceu e agora passava pela
porteira aboiando o gado de um pasto para o outro, mas a frase o perseguia. As
duas arvores seguiam abraçadas e floridas.
As velhas árvores guardam o segredo da velha
porteira de quem deixou aquela mensagem, que tanto intrigava o jovem menino, quando
passava pela porteira sob as arvores de Ipê Rosa, que agora recebera nova
mensagem misteriosa, onde se lia: “Viva o momento”. Quem passava por ali,
sentia o peso da decisão: seguir em frente ou permanecer.
A porteira testemunha silenciosa, via
histórias se desenrolarem, sonhos nascerem e outros se perderem. Mas as mensagens
permaneciam, imutáveis, lembrando que a vida é o que acontece, enquanto se faz
outras coisas. E aquele menino hoje faz poesia